Semaglutida e GLP-1: muito além do emagrecimento

setembro 9, 2025

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Nos últimos anos, os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs), como a semaglutida (Ozempic®, Wegovy® e Rybelsus®), transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Reconhecidos inicialmente pelo impacto na perda de peso e no controle glicêmico, esses medicamentos estão ganhando destaque por atuarem também no sistema de recompensa cerebral e no manejo da fome hedônica.

Em países como o Brasil, onde a obesidade afeta milhões de pessoas e o abuso de álcool e drogas é um problema de saúde pública crescente, esses novos achados podem abrir caminhos terapêuticos inovadores.

Semaglutida e o consumo de álcool

Um ensaio clínico de fase 2, publicado em 2025 no JAMA Psychiatry, demonstrou que a semaglutida reduziu significativamente:

o consumo de álcool em testes laboratoriais,

a intensidade do craving semanal,

e a frequência de episódios de bebedeira excessiva.

Entre fumantes, houve ainda uma redução adicional no número de cigarros consumidos .
Esses dados reforçam a possibilidade de que os GLP-1RAs possam ser aplicados no tratamento do transtorno por uso de álcool (AUD), um problema altamente prevalente no Brasil e responsável por elevados custos sociais e de saúde.

Semaglutida e dependência de cocaína

Um estudo pré-clínico, publicado no European Neuropsychopharmacology, mostrou que a semaglutida reduziu:

o consumo voluntário de cocaína em modelos animais,

a motivação para buscar a droga,

e a taxa de recaída após períodos de abstinência .

O efeito foi mediado pela modulação da dopamina no núcleo accumbens, estrutura-chave no sistema de recompensa. Embora os resultados ainda precisem ser confirmados em humanos, eles sugerem um potencial inédito para o uso de GLP-1RAs em transtornos relacionados a drogas ilícitas, uma demanda crescente também em países latino-americanos.

Diferença em relação aos antigos inibidores de apetite

Como médico que atua na área de obesidade há mais de 20 anos, observo claramente a diferença entre os antigos inibidores de apetite (utilizados no Brasil até 2010) e os modernos agonistas de GLP-1.

Antigos fármacos: agiam quase exclusivamente reduzindo a fome, muitas vezes com efeitos adversos importantes.

Novos GLP-1RAs: além do efeito sacietógeno, têm uma marcante ação sobre o desejo de comer — modulando a fome hedônica e interferindo diretamente no sistema de recompensa cerebral.

Na prática, explico aos pacientes que esses medicamentos não “tiram a fome”, mas modulam o desejo, atuando de forma mais fisiológica e personalizada. Cada paciente responde de maneira única, e cabe ao médico escolher a melhor estratégia ou medicação coadjuvante para ampliar os resultados.

Implicações para saúde pública

O potencial dos agonistas de GLP-1 vai além do emagrecimento:

Obesidade: já estabelecidos como tratamento de primeira linha para pacientes de alto risco.

Álcool e drogas: estudos sugerem um novo uso terapêutico para reduzir recaídas e melhorar o controle de dependências.

Saúde mental e qualidade de vida: impacto direto sobre circuitos de recompensa, modulando não só o apetite, mas também comportamentos compulsivos.

No Brasil e em outros países da América Latina, onde há forte sobreposição entre obesidade, alcoolismo e uso de drogas ilícitas, essa abordagem integrada pode representar uma revolução no cuidado de milhões de pessoas.

Conclusão

A semaglutida e outros agonistas do receptor de GLP-1 não devem ser vistos apenas como medicamentos para perda de peso. Eles representam uma nova fronteira terapêutica, atuando na interface entre endocrinologia, psiquiatria e saúde pública.

À medida que os estudos clínicos avancem, é possível que, no futuro próximo, vejamos esses medicamentos sendo usados tanto para emagrecimento quanto para o tratamento de dependências químicas.

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Referências

EREN-YAZICIOGLU, C. Y.; YIGIT, A.; DOGRÚOZ, R. E.; YAPICI-ESER, H. Can GLP-1 be a target for reward system related disorders? A qualitative synthesis and systematic review analysis of studies on palatable food, drugs of abuse, and alcohol. Frontiers in Behavioral Neuroscience, v. 14, p. 614884, 2021. DOI: 10.3389/fnbeh.2020.614884.

ZHU, Z.; GONG, R.; RODRIGUEZ, V.; et al. Hedonic eating is controlled by dopamine neurons that oppose GLP-1R satiety. Science, v. 387, n. 6741, eadt0773, 2025. DOI: 10.1126/science.adt0773.

ALHADEFF, A. L.; RUPPRECHT, L. E.; HAYES, M. R. GLP-1



Aviso clínico: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Decisões terapêuticas devem ser tomadas caso a caso, após avaliação profissional.


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Dr. Noé Alvarenga

Dr. Noé Alvarenga é médico nutrólogo (CRM RJ 555245 • RQE 33056 • CREMESP 202399 • RQE 91690), formado pela UNIRIO/1991, com pós-graduação e Título de Especialista em Nutrologia (ABRAN/AMB). Diretor da Clínica Nutrobarra (RJ). Foco em emagrecimento, longevidade e educação médica. Pai do Arthur. Apaixonado por gente e filmes.

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