Nos últimos anos, os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs), como a semaglutida (Ozempic®, Wegovy® e Rybelsus®), transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Reconhecidos inicialmente pelo impacto na perda de peso e no controle glicêmico, esses medicamentos estão ganhando destaque por atuarem também no sistema de recompensa cerebral e no manejo da fome hedônica.
Em países como o Brasil, onde a obesidade afeta milhões de pessoas e o abuso de álcool e drogas é um problema de saúde pública crescente, esses novos achados podem abrir caminhos terapêuticos inovadores.
Semaglutida e o consumo de álcool
Um ensaio clínico de fase 2, publicado em 2025 no JAMA Psychiatry, demonstrou que a semaglutida reduziu significativamente:
o consumo de álcool em testes laboratoriais,
a intensidade do craving semanal,
e a frequência de episódios de bebedeira excessiva.
Entre fumantes, houve ainda uma redução adicional no número de cigarros consumidos .
Esses dados reforçam a possibilidade de que os GLP-1RAs possam ser aplicados no tratamento do transtorno por uso de álcool (AUD), um problema altamente prevalente no Brasil e responsável por elevados custos sociais e de saúde.
Semaglutida e dependência de cocaína
Um estudo pré-clínico, publicado no European Neuropsychopharmacology, mostrou que a semaglutida reduziu:
o consumo voluntário de cocaína em modelos animais,
a motivação para buscar a droga,
e a taxa de recaída após períodos de abstinência .
O efeito foi mediado pela modulação da dopamina no núcleo accumbens, estrutura-chave no sistema de recompensa. Embora os resultados ainda precisem ser confirmados em humanos, eles sugerem um potencial inédito para o uso de GLP-1RAs em transtornos relacionados a drogas ilícitas, uma demanda crescente também em países latino-americanos.
Diferença em relação aos antigos inibidores de apetite
Como médico que atua na área de obesidade há mais de 20 anos, observo claramente a diferença entre os antigos inibidores de apetite (utilizados no Brasil até 2010) e os modernos agonistas de GLP-1.
Antigos fármacos: agiam quase exclusivamente reduzindo a fome, muitas vezes com efeitos adversos importantes.
Novos GLP-1RAs: além do efeito sacietógeno, têm uma marcante ação sobre o desejo de comer — modulando a fome hedônica e interferindo diretamente no sistema de recompensa cerebral.
Na prática, explico aos pacientes que esses medicamentos não “tiram a fome”, mas modulam o desejo, atuando de forma mais fisiológica e personalizada. Cada paciente responde de maneira única, e cabe ao médico escolher a melhor estratégia ou medicação coadjuvante para ampliar os resultados.

Implicações para saúde pública
O potencial dos agonistas de GLP-1 vai além do emagrecimento:
Obesidade: já estabelecidos como tratamento de primeira linha para pacientes de alto risco.
Álcool e drogas: estudos sugerem um novo uso terapêutico para reduzir recaídas e melhorar o controle de dependências.
Saúde mental e qualidade de vida: impacto direto sobre circuitos de recompensa, modulando não só o apetite, mas também comportamentos compulsivos.
No Brasil e em outros países da América Latina, onde há forte sobreposição entre obesidade, alcoolismo e uso de drogas ilícitas, essa abordagem integrada pode representar uma revolução no cuidado de milhões de pessoas.
Conclusão
A semaglutida e outros agonistas do receptor de GLP-1 não devem ser vistos apenas como medicamentos para perda de peso. Eles representam uma nova fronteira terapêutica, atuando na interface entre endocrinologia, psiquiatria e saúde pública.
À medida que os estudos clínicos avancem, é possível que, no futuro próximo, vejamos esses medicamentos sendo usados tanto para emagrecimento quanto para o tratamento de dependências químicas.
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Referências
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ZHU, Z.; GONG, R.; RODRIGUEZ, V.; et al. Hedonic eating is controlled by dopamine neurons that oppose GLP-1R satiety. Science, v. 387, n. 6741, eadt0773, 2025. DOI: 10.1126/science.adt0773.
ALHADEFF, A. L.; RUPPRECHT, L. E.; HAYES, M. R. GLP-1
Aviso clínico: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Decisões terapêuticas devem ser tomadas caso a caso, após avaliação profissional.
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relevância para Brasil e América Latina, destacando impacto em obesidade, alcoolismo e uso de drogas.