Ozempic, Mounjaro e Câncer: o que o estudo da ASCO 2026 revelou
Uma nova onda de pesquisas sugere que os medicamentos GLP-1 podem reduzir não apenas o peso — mas também a progressão de alguns cânceres relacionados à obesidade. O que isso significa na prática.
Nos últimos anos, medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy foram protagonistas de muitas conversas — primeiro pela eficácia no controle do diabetes e na perda de peso, depois pelas polêmicas envolvendo uso estético e desabastecimento nas farmácias.
Agora, uma nova onda de estudos chama atenção para outro possível efeito dessa classe: a redução do risco de alguns tipos de câncer e, talvez, a diminuição da progressão para metástase em certos tumores ligados à obesidade.
Obesidade e câncer: uma ligação que precisa ser levada a sério
A obesidade está ligada a pelo menos 13 tipos de câncer, incluindo mama, intestino, fígado, rim, pâncreas, endométrio e ovário. Isso não acontece apenas porque a pessoa está acima do peso. O excesso de tecido adiposo cria um ambiente biológico desfavorável, com inflamação crônica, resistência à insulina, aumento de insulina circulante, alterações hormonais e disfunção do sistema imunológico — fatores que favorecem o surgimento e a progressão de tumores.
Tratar a obesidade é também fazer prevenção da doença mais temida pela Humanidade. Controlar metabolismo, glicose, gordura visceral e inflamação pode ter um impacto muito maior na saúde do que durante muito tempo se imaginou.
O que há de novo no estudo da ASCO 2026
Em maio de 2026, pesquisadores da Cleveland Clinic apresentaram no maior congresso de oncologia do mundo um estudo que analisou mais de 12 mil pacientes com sete tipos de câncer relacionados à obesidade, em estádios iniciais a localmente avançados, comparando pacientes que usavam agonistas de GLP-1 com pacientes tratados com inibidores de DPP-4.
Resultados por tipo de câncer
- Câncer de pulmão não pequenas células — menor risco de progressão para metástase
- Câncer de mama — redução relativa de até 50%; maior expressão do receptor de GLP-1 associada à melhor sobrevida
- Câncer colorretal — associação favorável com redução de progressão
- Carcinoma hepatocelular — redução relativa de aproximadamente 31% a 50%
- Próstata, rim e pâncreas — tendência favorável, sem significância estatística até o momento
Outro achado relevante foi a associação entre maior expressão tumoral do receptor de GLP-1 e melhor sobrevida em algumas análises, especialmente em câncer de mama. Isso levanta a hipótese de que esses medicamentos possam atuar não apenas por reduzir peso e melhorar metabolismo, mas talvez também por interferirem em vias biológicas do próprio tumor.
O que isso significa na prática?
É cedo para dizer que os agonistas de GLP-1 são "remédios contra o câncer". Os estudos disponíveis são observacionais — mostram associação, não prova de causa e efeito. Pacientes que usam essas medicações podem também ter mais acompanhamento médico, mais exames e maior acesso ao sistema de saúde, o que pode influenciar os resultados.
Por esse motivo, nenhuma sociedade médica séria recomenda hoje usar GLP-1 como tratamento oncológico específico ou substituir terapias consagradas. Mas esses estudos estão sinalizando uma vertente nova e promissora — e reforçam uma mensagem central: a obesidade não é inofensiva, e seu combate pode mitigar o risco de diversas doenças, inclusive o câncer.
Referência
THE ASCO POST. GLP-1 RAs May Reduce Metastatic Progression in Certain Obesity-Related Cancers. 2026. Disponível em: ascopost.com. Acesso em: 14 jun. 2026.
Médico nutrólogo com mais de 30 anos de experiência e 10.000 pacientes atendidos. Especialista em obesidade, GLP-1 e composição corporal. Diretor Médico da Nutrobarra Nutrologia Avançada, Rio de Janeiro. Fundador do Doutores da Obesidade.
Quer tratar obesidade com critério e segurança?
Consulta presencial na Barra da Tijuca e Del Castilho
Fale com nossas atendentes