A população brasileira com mais de 60 anos já ultrapassou 32 milhões de pessoas. Segundo o IBGE, a proporção de idosos quase duplicou entre 2000 e 2023, saltando de 8,7% para 15,6%. A expectativa de vida atingiu 76,6 anos em 2024, e as projeções indicam que em 2050 teremos mais de 60 milhões de pessoas acima dos 60 anos — o equivalente a 30% da população do país.
O Brasil está envelhecendo rápido. E a maioria dos nossos pacientes está envelhecendo mal do ponto de vista nutricional.
É nesse cenário que a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), sob organização da Profa. Dra. Sonia Tucunduva Philippi, lançou uma publicação inédita: a Pirâmide dos Alimentos para Pessoa 50+. Não se trata de uma adaptação cosmética. É uma reconstrução completa dos grupos alimentares, das porções e da hierarquia nutricional, desenhada especificamente para o paciente que envelhece.
O retrato nutricional do brasileiro 50+
Os dados do Estudo Brasileiro de Nutrição e Saúde (EBANS), com amostra representativa de 1.812 adultos das cinco macrorregiões do Brasil, revelam um cenário preocupante na faixa etária de 51 a 65 anos:
Dados do EBANS — faixa 51–65 anos
- 75% apresentam excesso de peso
- 62% são insuficientemente ativos
- 86,6% consomem fibras abaixo da recomendação de 25 g/dia
- 50% excedem o limite de 10% do VET em açúcar de adição
- 45% ultrapassam o limite de gordura saturada
- Inadequação de vitamina D acima de 99%, vitamina E acima de 93%, cálcio acima de 95%
O consumo proteico cai significativamente com o avanço da idade: de 84 g/dia nos adultos jovens para 70 g/dia na faixa de 51 a 65 anos. E apenas 5% dos entrevistados relataram uso de algum suplemento alimentar.
Estamos diante de uma população que come demais em quantidade e de menos em qualidade — e que está perdendo massa muscular enquanto acumula gordura.
O que muda na nova Pirâmide 50+
A pirâmide reorganiza a estrutura clássica em quatro níveis e seis grupos de alimentos, com porções calibradas para uma dieta de aproximadamente 2.000 kcal. As mudanças são relevantes para a prática clínica:
- A base não é mais de cereais. Frutas, legumes e verduras (FLV) ocupam o primeiro nível — 3 porções de frutas e 4 de legumes/verduras por dia.
- PANCs entram formalmente na base. Plantas alimentícias não convencionais como ora-pro-nóbis, taioba e folha de batata-doce são incluídas, com alto valor nutricional e baixo custo.
- Cereais ficam no segundo nível com 5 porções, priorizando integrais: arroz integral, aveia, chia, quinoa.
- O terceiro nível concentra as proteínas: lácteos desnatados (3 porções), carnes magras e ovos (2 porções) e leguminosas (1 porção). O arroz com feijão permanece recomendado pela complementaridade de aminoácidos.
- Açúcares foram removidos do infográfico. Passam a ser tratados como "calorias discricionárias" — no máximo 5% do VET, com aconselhamento individualizado.
A grande novidade: suplementação dentro da pirâmide
Esta é, na minha avaliação, a decisão mais relevante da publicação.
Pela primeira vez, um guia alimentar brasileiro com chancela de uma sociedade médica coloca o suplemento nutricional oral como um grupo dentro da pirâmide — com 2 porções diárias recomendadas (140 kcal por porção).
A justificativa é sólida. As diretrizes da ESPEN recomendam que suplementos sejam oferecidos na desnutrição ou risco nutricional, fornecendo no mínimo 400 kcal e 30 g ou mais de proteínas por dia. A ingestão proteica recomendada para idosos é de pelo menos 1 g/kg/dia segundo o PROT-AGE Study Group, podendo chegar a 1,2–1,5 g/kg/dia em condições inflamatórias ou catabólicas.
O suplemento deixa de ser uma intervenção de exceção e passa a ser uma ferramenta preventiva de rotina. Para quem atende pacientes 50+ no consultório, isso muda a conversa.
Sarcopenia, fragilidade e o papel da nutrição
O protocolo diagnóstico de sarcopenia segue quatro etapas: triagem com SARC-CalF, avaliação de força muscular com dinamometria ou teste de sentar-levantar, confirmação com massa muscular (densitometria, bioimpedância ou equação de Lee), e estadiamento de gravidade pela velocidade de marcha.
O tratamento combina exercício resistido progressivo (80% de 1RM, 2–3x/semana) com aporte proteico individualizado. A suplementação de vitamina D é recomendada quando os níveis de 25(OH)D estão abaixo de 30 ng/mL.
Os 8 passos do planejamento alimentar para o idoso
- Avaliar rotina e alimentação atual (incluindo fotos dos pratos)
- Estimar necessidades energéticas (24–36 kcal/kg, média de 30 kcal/kg segundo ESPEN)
- Definir necessidades proteicas (1,0–1,2 g/kg/dia, fracionadas em 25–30 g por refeição)
- Avaliar recomendações de micronutrientes (atenção especial a cálcio, vitamina D, vitamina B6)
- Garantir hidratação adequada (30 mL/kg/dia)
- Planejar fracionamento (4–6 refeições/dia)
- Adaptar texturas e preparações à capacidade mastigatória e deglutória
- Distribuir os grupos de alimentos nas refeições
O que levar para o consultório
Para nós que atendemos pacientes com sobrepeso e obesidade acima dos 50 anos, a Pirâmide 50+ da SBGG é mais do que um guia teórico. É uma ferramenta de educação alimentar com respaldo institucional que pode ser usada na consulta.
O paciente entende visualmente a proporção entre os grupos. Entende que suplementar não é fraqueza, é estratégia. E nós ganhamos evidências organizadas para sustentar recomendações que muitos de nós já fazíamos intuitivamente.
O envelhecimento saudável não é só ausência de doença. É manutenção de funcionalidade, autonomia e qualidade de vida. E a alimentação é, sem dúvida, um dos pilares mais acessíveis e modificáveis dessa equação.
Referência
Philippi ST et al. Pirâmide dos alimentos para pessoa 50+. São Paulo: Grupo Planmark; 2026. ISBN 978-65-87763-37-8. Chancela SBGG.
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