Wegovy reduz risco cardiovascular em 57%. Mounjaro 29%. Entenda.

setembro 1, 2025

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Antes de trocar de medicação, vale entender o contexto: neste artigo de leitura rápida, eu traduzo a manchete sobre o Wegovy (estudo STEER, ESC 2025) para a realidade do consultório e dos pacientes que precisam saber disso.

No domingo, 31 de agosto de 2025, um resultado apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2025), em Madri, acendeu um debate global. Em pessoas com obesidade e doença cardiovascular (sem diabetes), a semaglutida 2,4 mg (Wegovy) apareceu com 57% menos risco relativo de infarto, AVC ou morte em comparação com a tirzepatida — desde que o paciente não tenha pausas maiores que 30 dias no tratamento. Em linguagem simples: num acompanhamento de poucos meses, os eventos foram raros, mas proporcionalmente menos frequentes com Wegovy (1)(2).

Por trás da manchete, há detalhes que fazem diferença para quem cuida da saúde — e para quem toma decisões clínicas. O estudo é de vida real (observacional), não um “cara a cara” randomizado entre as duas moléculas. O desfecho composto considera infarto, AVC e morte por qualquer causa; e quando a análise inclui todos os usuários (inclusive os que fizeram pausas), a diferença cai para cerca de 29% com um seguimento um pouco mais longo. Em outras palavras: há um sinal consistente a favor da semaglutida no recorte cardiovascular, mas ele precisa ser lido com contexto (1)(2).

Para quem essa informação importa (e por quê)

O estudo coloca holofotes numa população específica: adultos a partir de 45 anos, com sobrepeso/obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem diabetes — justamente o grupo em que reduzir eventos como infarto e AVC traz ganhos de vida e produtividade. Para esse perfil, já havia uma base sólida: o SELECT (ensaio randomizado com semaglutida 2,4 mg vs placebo) mostrou redução de ~20% em desfechos cardiovasculares maiores, o que inclusive levou a aprovação regulatória nos EUA para redução de risco cardiovascular nessa população. O dado novo do ESC 2025 não “inventa” um benefício: ele sugere que, na prática real, semaglutida pode superar a tirzepatida especificamente no recorte de risco cardiovascular — pelo menos no curto prazo e sob condições de boa adesão (3)(4)(5).

O que isso não quer dizer

Não quer dizer que “Wegovy é melhor em tudo”. Tirzepatida continua extremamente potente para perda de peso, e o próprio estudo não comparou quanto cada grupo emagreceu — um detalhe que pode influenciar o risco cardiovascular ao longo do tempo. Também não quer dizer que qualquer pessoa com sobrepeso deve correr para trocar medicação: indicação é individual, e médicos ponderam história clínica, tolerabilidade, objetivos (peso, glicemia, colesterol), acesso/custos e preferências. E, finalmente, não quer dizer que o tema está encerrado: seguimento curto (meses), pouquíssimos eventos absolutos e possíveis vieses pedem humildade científica e mais dados (1)(2).

O que muda hoje no consultório

Para quem já tem doença cardiovascular e luta com o peso, essa evidência reforça algo que já vínhamos discutindo: semaglutida 2,4 mg é hoje a opção com melhor lastro cardiovascular na população sem diabetes. Na decisão terapêutica, isso pesa — especialmente quando a meta é reduzir risco de evento e não apenas perder quilos. Já para quem está indo bem com tirzepatida, sem efeitos colaterais e com boa resposta ponderal, a troca não é automática: vale a conversa franca, olhando riscos, benefícios e disponibilidade (3).

Bloco de dados (para quem gosta de números)

O que foi apresentado (ESC 2025 – estudo STEER, mundo real):

  • População: ≥45 anos, obesidade/sobrepeso + DCV, sem diabetes; base Komodo Research; pareamento por propensity score (~10.625 vs 10.625).
  • Desfecho (MACE revisado): infarto, AVC, morte por qualquer causa (em análises também aparecem MACE-5 com revascularização e hospitalização por IC).
  • Acompanhamento (aderentes): ~3,8 meses (Wegovy) vs 4,3 meses (tirzepatida).
  • Eventos (aderentes): 0,1% (Wegovy, 15 casos) vs 0,4% (tirzepatida, 39 casos) → –57% relativo.
  • Todos os tratados (inclui pausas): ~8,3 vs 8,6 meses; –29% relativo. (1)(2)

O que já era conhecido (e por que isso importa)

  • SELECT (NEJM 2023): em obesidade/sobrepeso + DCV, sem DM, semaglutida 2,4 mg reduziu ~20% o risco de MACE vs placebo (seguimento de anos). Isso sustenta a base biológica e clínica por trás da notícia de agora (3).
  • Regulatório: em mar/2024, a FDA aprovou Wegovy para reduzir risco de eventos cardiovasculares nessa população; na Europa, houve atualização de rótulo refletindo redução de MACE (sem criar indicação separada de “prevenção”) (4)(5).

Perguntas rápidas (FAQ)

1) O 57% é “garantia” para qualquer pessoa?
Não. É risco relativo observado em estudo observacional em quem não interrompeu o tratamento por >30 dias. Em toda a população (incluindo pausas), o efeito foi ~29% (1)(2).

2) Isso prova que Wegovy é melhor do que tirzepatida para tudo?
Não. O estudo olha desfechos cardiovasculares no curto prazo, com poucos eventos. Perda de peso, tolerância e metas individuais também contam na escolha (1)(2).

3) E quem tem diabetes?
Este recorte é sem diabetes. Existem outros estudos e indicações para populações diferentes; a decisão é individualizada com o seu médico (3).

4) Onde posso ler a fonte oficial?
O press release da Novo resume o estudo; a Reuters traz checagem independente; e o site do congresso lista a apresentação (1)(2).

Para médicos (leitura de 60 segundos)

  • Indicação: Obesidade + DCV, sem DM — se o objetivo inclui desfecho CV, a balança de evidência (SELECT + RWE) favorece semaglutida 2,4 mg (3).
  • Aderência importa: a diferença “57%” aparece no subgrupo aderente; com pausas, cai para ~29%. Educar para adesão é parte da estratégia (1)(2).
  • Limitações: não-RCT, seguimento curto, eventos raros — interpretar como sinal, não veredito “molecule-vs-molecule”. Planeje revisitar com dados de 12–24 meses (1)(2).
  • Regulatórios e prática: FDA 2024 – Wegovy com claim CV; UE com texto de rótulo refletindo redução de MACE. (4)(5).


Referências

Novo Nordisk. Press release: Wegovy cuts risk of heart attack, stroke or death by 57% compared to tirzepatide in real-world study (31/08/2025). https://www.prnewswire.com/news-releases/novo-nordisks-wegovy-cuts-risk-of-heart-attack-stroke-or-death-by-57-compared-to-tirzepatide-in-real-world-study-of-people-with-obesity-and-cardiovascular-disease-302542590.html

Reuters. Novo Nordisk’s Wegovy cuts heart risk by 57% versus rival Lilly weight-loss drug (31/08/2025). https://www.reuters.com/business/healthcare-pharmaceuticals/novo-nordisks-wegovy-cuts-heart-risk-by-57-versus-rival-lilly-weight-loss-drug-2025-08-31/

SELECT Trial (NEJM, 2023). Semaglutide 2.4 mg and cardiovascular outcomes in patients with overweight or obesity without diabetes. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2307563

FDA (08/03/2024). FDA approves Wegovy to reduce risk of cardiovascular events in adults with obesity/overweight and established CVD. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-first-treatment-reduce-risk-serious-heart-problems-specifically-adults-obesity-or

EMA / UE (2024). Wegovy – Product information update reflecting MACE reduction in patients with obesity/overweight and CVD (label text). https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/wegovy



Aviso clínico: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Decisões terapêuticas devem ser tomadas caso a caso, após avaliação profissional.


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Dr. Noé Alvarenga

Dr. Noé Alvarenga é médico nutrólogo (CRM RJ 555245 • RQE 33056 • CREMESP 202399 • RQE 91690), formado pela UNIRIO/1991, com pós-graduação e Título de Especialista em Nutrologia (ABRAN/AMB). Diretor da Clínica Nutrobarra (RJ). Foco em emagrecimento, longevidade e educação médica. Pai do Arthur. Apaixonado por gente e filmes.

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